01 outubro, 2012

Octavio Paz (1914–1998) - Comunicação Genuína


"Existem possibilidades de comunicação genuína? 
 
   Pensamento e linguagem são pontes, mas, precisamente porque são pontes, eles não apagam a distância entre nós e a realidade externa. Feita tal reserva, pode-se dizer que poesia, festa e amor são formas de comunicação genuína, ou seja, de comunhão.
 
¢No caso da poesia, a comunhão começa em uma zona de silêncio, no momento mesmo em que o poema termina. Um poema poderia ser definido como um organismo verbal que produz silêncio.
 
¢Na festa – penso sobretudo nos rituais e cerimônias religiosas – a fusão ocorre na direção oposta: não um retorno ao silêncio, o refúgio da subjetividade, mas um reunir-se do grande todo coletivo – o Eu torna-se um Nós.
 
¢No amor a contradição entre comunicação e comunhão é ainda mais chocante. Um encontro erótico começa com a visão do corpo desejado. Vestido ou nu, este corpo é uma presença: uma forma que, for um instante, [equivale à] totalidade de formas no mundo.  Um corpo que de repente torna-se infinito. O corpo do meu/minha parceiro(a) deixa de ser uma forma e se torna algo imenso em que tanto me perco quanto me recupero. Nós perdemos a nós mesmos como pessoas e nos recuperamos enquanto sensações. À medida em que a sensação se torna mais intensa, o corpo que abraçamos se torna mais e mais imenso. Uma sensação de infinitude: nós perdemos nosso corpo naquele corpo. O abraço carnal é o apogeu do corpo e a sua perda. É também a experiência da perda de identidade: a forma se torna difusa em mil sensações e visões, uma queda no oceano, uma evaporação da essência. Não existe forma nem presença: existe uma onda que nos agita, o galope nas planícies da noite. Uma experiência circular: começa com a abolição do corpo do casal, transforma-se numa substância infinita que palpita, se expande, contrai-se e nos envolve em águas primordiais: um instante depois, a substância se esvanece, o corpo torna-se um corpo novamente e a presença reaparece. Nós podemos perceber a pessoa amada somente como uma forma que esconde uma alteridade irredutível, ou como uma substância que anula a si mesma e nos anula (p. 253-254)".